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Jaime Brasil
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Year
2015
Language
Portuguese
Publisher
Editora da Casa

About

Bem-vindo ao big bang verbal de Jaime Brasil, leitor. Com seu título peremptório e sua recusa programática do lirismo institucional - em que certa poesia ainda teima em se escrever "flores" -, o poeta de "Não" recolhe os estilhaços do mundo, ciente de que "estão com defeito todos os fechos da realidade", e descrente de alumbramentos. Irmanando-se à antipoesia de Nicanor Parra, Brasil procede também pelo método eliotino da montagem, disparando imagens e espraiando seu delírio progressivo numa profusão de poemas sem título, brindando "ao mais ou menos que temos/antes que eu me dê por satisfeito". Porém, o poeta cético não corre esse risco: "nunca tive uma fase de oásis", afirma, "pois tudo na areia é caminho"; no entanto, prefere, "de grão em grão, fabricar meu próprio deserto". Esse verso axiomático bem poderia definir a ars poetica de JBF, cuja práxis se compraz também na orquestração de células sonoras ou de palavras contíguas, bebendo de um "oceano abissal de absinto", num "absoluto luto diário, que soluça sem solução". Girando sem cessar na constelação de signos, "mordendo a carne de utopias recém-abatidas", o poeta percorre o "caos cotidiano que parece natural e civilizado", e nos adverte que "é do curtume que saem os meus mais caros perfumes". A cada passo, relances da realidade vão rompendo o véu de Maya, e o poema dá conta de que "a fé move montanhas de dinheiro / e exércitos marcham sobre cadáveres de crianças". Nessa litania laica, em que a poesia passa por "sussurro rouco reverberando no oco de um coco / mas é o que tenho a oferecer". o poeta recusa ainda qualquer conciliação: "pensar se depois do fim vai ser legal? / quero não, querubim". No entanto, ao fim e ao cabo, "cada um se mostra conforme se esconde", e ela, poesia, aflora sempre: "ara o ar, esculpe a água, fluidifica a terra"; assim como "uma nuvem grávida dá à luz um arco-íris". Sim, a criação é contínua no universo negativista de Jaime Brasil.
Texto de Luiz Roberto Guedes.

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